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Stalingrado 2
 


POEMA INÉDITO

Evocação Inútil

 

Ó meninino que fui

dono duma infância sabor novalgina

sofrendo delírios por doses excessivas

de xarope para o pigaro e a tosse -

infantil viagem sob o sol anti-Copérnico

                       dos trópicos, onde te perdi?

 

Ó fotocópia do pai

imprudente criatura

amassando com o calo dos pés

os caramujos da esquistossomose:

educado naturalmente

por um brejo povoado por destemidos vermes -

que vida era aquela

onde a felicidade se escondia

no pequeno peixe que resistia

          em meio as fezes e ao detergente

          expelidos pelos intestinos da civilização?

 

Ó minúsculo sonhador

que escapou do coice de cavalos humanizados

pelas placas de trânsito

                   e a covivência com as rádios AM -

que motivo havia para se ser feliz

nas axilas daquela cidade

que produzia mangas

                        e goiabas melhores do que homens?

 

Ó incansável infante

que o tempo mastigou

até torná-lo meu antepassado:

te procuro tremendo de medo

         das guerras televisonadas

                          em horário nobre;

tremendo de medo

             dos vazamentos radioativos

                        discutidos nas mesas de bar -

 

que estupidez geográfica te levava

a crer que a tua casa seria o próximo alvo?

 

Ó ignorante de si mesmo

te procro mijando sobre as flores do jardim

num dia esquecido por todos

                  por não haver algo de novo nele -

que risos você riu nessas tardes

por nada que valesse a pena

                           ou merecesse apreço?

 

Ó curioso moleque

interessado na decomposição dos ratos

na fratura exposta, no fogo nas petroquímicas -

me encontro em ti

no olhar     no passo     na voz

 

e retorno em seguida

para a merda de vida que será a tua.

 



Escrito por l. rafael nolli às 15h14
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