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DUAS MULHERES
Camaradas, hoje deixo aqui o link do Multiply da minha querida amiga Nana Magalhães, http://joananict.multiply.com/journal/item/1 onde há um poema meu; deixo também esse texto da Jana, que está entre as minhas escritoras preferidas.
AMANHÃ Escrito por Janaína Calaça
Queria ser rosto em comercial de shampoo, os cabelos esvoaçantes pelos ventiladores do estúdio. Queria ser um corpo conhecido, curvas discutidas na hora do recreio pelos meninos virgens da escola. Queria ser o rosto lembrado entre o vai-vém dos dedos dos meninos à noite, depois do sanduíche de queijo e da coca-cola. Queria mais que os acessos ao seu fotolog, queria ser mais que uma webcelebridade. Queria seu rosto nos comerciais, nas novelas, nos seriados de tv. Queria ser.
Entre o celular com capa de pelúcia, o gloss, dinheiro e absorventes, a menina carregava sua câmera slim com cartão de memória suficiente para mais de 300 fotos, que, somadas às 300 fotos de cada uma de suas amigas, gerava sempre um total de umas 1500 fotos por noite nas baladas. Fotografias com poses ensaiadas, carinha sexy, carinha séria, carinha de lado, carinha de baixo para cima, calcinha à mostra descuidadosamente no subir das escadas. As noites eram uma mistura de flashs, caipiroskas, língua-língua com os meninos, língua-língua com as meninas, uns amassos no canto escuro das boates, retoques de batom nos banheiros cheios, e mais fotos, mais jogo de espelhos.
Deixou recado na geladeira, ao lado da lista de compras da semana. A cor da unha combinando com a cor do sapato. A mãe só chegaria depois das dez, depois do plantão completo. O pai vivia em outro estado, com outra família, mobília e outros gatos. Pegou a bolsa e saiu. A noite seguiu seu script rotineiro, com o gelo do copo dissolvendo entre a língua da menina e o vidro, entre o olhar do menino malhadinho e de sua cerveja long neck. Logo-logo estariam tocando sexo-sexo com os dedos por cima das roupas. O gosto do morango e da vodka misturava-se ao gosto da cerveja. As amigas serpenteavam na pista de dança, atraindo Najas outros malhadinhos e suas long necks. Ele chamou: “Vamos?”. Ela disse: “Vamos”. Na segunda-feira, entre gritinhos, ela contaria como ele era bom de cama ou um fracasso e contaria também se as dicas da revista 10 maneiras de dar prazer ao parceiro funcionavam ou não. Pediu licença, falou com as amigas, uma disse que não fosse, outra disse ”vai logo”, outra estava bêbada demais para dizer alguma coisa. Fez mais umas poses com as amigas para mostrar à mãe mais tarde e acompanhou o menino malhadinho com sua inseparável long neck. Abriu o carro, que pegou emprestado do pai orgulhoso do filho baladeiro. Chave, marcha e o som ligado.
A menina tocando o pau do menino por cima da calça. Zíper lá embaixo. Viu essas cenas em tantos filmes. Ele dizendo “uow, gatinha” e deixando o pé pesar no acelerador do carro. A menina brincava com os dedos e com o vermelho entre o jeans. Os pés pesados no acelerador. Ela tira a mão. Faz pose como se fosse tirar mais uma foto para o fotolog. Ele vira o rosto para a menina. Outros meninos e outras meninas também saem de pontos distintos da cidade. Todos com os carros emprestados dos pais, long necks e brincadeirinhas aprendidas nos filmes, entre paus e dedos. Ele só ouve o pneu cantar alto na estrada, um freio retardatário, um farol apagado, três pancadas fortes e o silêncio. Quem dormia, acorda. Quem não dormia, apenas acende as luzes de casa e as pessoas vão chegando sonolentas. Outras discam números no telefone. E enquanto as sirenes não chegam, os meninos e as meninas continuam quietos nos carros. Amanhã a mãe plantonista vai escolher uma fotografia brilhante da filha que queria ser rosto conhecido. Amanhã ela vai discar o número do ex-marido, que mora longe entre outra família e outros gatos. As amigas postam as últimas fotos nos seus fotologs, criam comunidade “saudades de …” no Orkut e em horário nobre sua fotografia sorridente é colocada sucessivas vezes no ar, enquanto alguém refaz as contas e transforma a menina e os outros em estatísticas e relatórios. E nada interrompe os ciclos.
Escrito por l. rafael nolli às 13h03
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