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Stalingrado 2
 


ENFISEMA

 

Acendeu o cigarro, como sempre o fizera: isento de qualquer fragmento de dúvida ou hesitação. Não sabia, ainda, que iria morrer.

Não lhe esperava um paredão de fuzilamento igual esperara Aureliano Buendia, nas ruas de Macondo. Não havia, em seu rito fúnebre, o paredão ponto-final que aguardara idênticos chineses - possuidores da bala idêntica e de suas mortes idênticas. Não lhe esperava o fuzilamento mal barbeado, mal fardado, tão bem ilustrado por Goya, e que remetia a mente a muros construídos por diversos tiranos latinos, para matar quem já há muito havia sido morto nos cafezais e senzalas, nas cozinhas, delegacias e bananais, em alguma quente tarde tropical.

Tragou como se a vida se estendesse além do carbono, do aço e dos ossos: ainda não lhe ocorrera.

O dia normal não anunciava - ainda que os canteiros centrais da avenida preludiassem o túmulo vindouro - que, em breve, o ritmo operário dos órgãos de seu corpo, tão infensos aos fatores invisíveis & sentimentais, cairiam numa estática sonolência eterna e irremediável. O dia normal não salientava a catástrofe que se avizinhava - ainda que a noite estivesse mais escura do que nunca, escondendo pequenas estrelas debaixo de suas asas negras.

Mesmo que a fumaça lembrasse a pista de um desastre, fumava tal usina; fumava feito escapamento de carro, de ônibus, de caminhão, de olaria, de carvoaria, de jato. Mesmo que o dejeto de seu cigarro & pulmões lembrasse algum impensado espetáculo pirotécnico - ou premeditado ato pirofágico, terminados em cinzas e pó - fumava dotado de saúde, esquecido de todas as negras sinas.

O gosto amargo na boca, adocicado pela dose gulosa de café, não recordava com urgência nostálgica, com pressa meticulosa, o último e o primeiro beijo - passando entre alguns intermediários irrelevantes. Os olhos sonolentos - e era apenas sono, sem vontade de sonho, pois a morte ainda não havia iniciado seu breve e virótico download - não lembravam com pressa eufórica o azul do céu, o azul do mar, o azul dos olhos e todos os outros azuis que haviam colorido sua vida marrom.

Deitado, como se ensaiasse o derradeiro instante de desligamento órgão-espiritual, não notara, enquanto olhava o guimba do cigarro no cinzeiro, que iria, enfim, morrer.

Ainda que não fosse agora, e o tempo para os pedidos de desculpas e as despedidas já se esgotara, não haveria amanhã possível para tais atos.

Dormiu alienado do fato que uma bala perdida - pássaro embrutecidos pelo tempo e a vontade maior de espinhar-se definitivamente, ave desemplumada, transformada em balaço de ferro e fúria - viria a descansar cravada em seu peito.

Ainda não sabia que aquele seria o último de seus cigarros.



Escrito por l. rafael nolli às 23h13
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