ODE AO MORTO
1
Parece que dessa vez foste mesmo de encontro ao fim. Ao menos ainda não ressurgistes tal qual Lázaro, para simplesmente contradizer as notícias de sua morte. Logo nessa vez, a única morte sua não anunciada; logo nessa vez, a primeira morte sua não ridicularizada; logo nessa vez: não chegaram bocas risonhas ou piadas risonhas propagando a tua partida. Como quando, em coma por dias, desenganado, de repente você se pôs a viver de novo; como quando uma veia simplesmente resolveu arrebentar, e, sem chance alguma de sucesso, a morte num cochilo sombrio permitiu que drenassem seu córrego vermelho, dicassem esse brejo escarlate, para que seu curso – correndo de artérias a coronárias –, obrigasse o coração a bater e o cérebro burro a responder aos impulsos elétricos. Entre piadas risonhas e bocas risonhas: “Ele não morreu, acreditam? Estava desenganado”... E agora que fazem meses que disseram terem visto o seu velório (um velório vazio, desprovido de amigos que o chorasse), você simplesmente não reaparece. Não sei também se trarias notícias agradáveis, ou impressões salutares da quase-morte, mal sei se tocarias no assunto. Não que nunca tenhamos sido amigos suficientes para certas confissões, não que nunca tenhamos trocado uns segredos (na realidade, nunca trocamos segredos ou confissões). Tua boca solta, falastrona, haveria de se silenciar sobre suas aventuras em cima de um lençol hospitalar, entubado com horríveis caninhos de plástico, completamente cagado e fedendo a urina, efetuando a viagem derradeira; haveria de se silenciar: essa aventura fôra, certamente, traumática e incompreensível para uma pequena mente como a tua. Talvez, não por medo de dizê-las, mas sim por simples esquecimento. Não por medo de dizê-las, mas sim por não dar importância a isso... Não dar importância: você mesmo por quantas vezes não bateu em minha porta, e, antes de enxotá-lo para que me permitisse um descanso, não anunciara o inferno lindo e maravilhoso e sua estadia eterna por lá mais que sabida – e bem quista. Não dar importância: você mesmo, por quantas vezes, e eu negando ouvi-lo, anunciou saber o enxofre um cheiro bom e por mais que o evangelho insistisse, ainda aceitar apenas Satã como pai.
2
O fato não é dizer “parece que dessa vez...”, pois só não parece, mas está realmente morto aquele que, por ter taras infindas, sonhos eróticos infinitos e idolatria por sovacos cabeludos & vaginas enstruadas, decidiu como certo (foi um imbecil que o obrigou a crer nisso!) que a poesia era uma estupidez sem fim. Estupidez não dizias com a própria boca – essa palavra era um pouco complexa para seu linguajar.
3
Mais uma ironia: eu, L. Rafael Nolli, que muito lhe desmereci, posso agora, unicamente, escrever-lhe um verso. Uma homenagem que certamente nunca iria lhe agradar em vida. Uma ironia horrenda, eu que não sei o cemitério no qual enclausuraram seu corpo grande e gordo; eu que não sei o número de sua sepultura ou a data de sua morte, sento hoje, no dia dezessete de outubro do ano de 2003, as onze horas da manhã, e lhe dedico esse verso, talvez pelo simples fato de que nada de melhor me ocorreu fazer enquanto o almoço não fique pronto.
4
Amigo K. A. B., último humano nesse mundo que poderia ser matéria-prima de poesia, aceite aí no inferno esse verso sincero (como é estranho dizer isso agora que você realmente está morto, e seu corpo os vermes já devoraram). Um verso sincero: sei que além de todos os fardos que carregaste nesse mundo essa terra que lhe encerra, dificilmente, lhe será leve, e sei que da morte apenas incompreensão podemos esperar!
5
(Porém, talvez você não tenha morrido nada, e a qualquer hora dessas, com a voz enjoada, venha bater na minha porta e me desagradar com suas absurdas e doentias piadas – que se confundem de tal forma consigo mesmo que eu não saberia dizer se riria ou se simplesmente temeria esse que insiste em não morrer.)
Escrito por l. rafael nolli às 00h00
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