| |
Diário
 Tela de Karl Schmidt-Rottluff
Quem virá me salvar? Quando? E como? As preces se perdem: o deus-cavalo saxão não compreende minhas psicopatologias: quem vem, herói ou vilão, Jesus ou Judas, reerguer-me da briga que se arrasta pelas ruas e que tem sido a minha vida: quem vem, e como, levantar-me de uma queda que se eterniza no impacto com o chão: levantar-me de um tombo fatal, sistémico: caio, cai minha sanidade, caio, despenca meu juízo - pensei, ontem, em dizer uma palavra mágica, que guardo há muito tempo, que destruiria todas as coisas (voaria antes, eu vislumbrei isso, como o Enola Gay voou, em seu útero um ovo, por sobre as cabeças sem chapéu dos homens); pensei ontem, verbo mágico se debatendo em meus dentes em cela, que essa palavra seria ouvida nos manicômios como um chamado insano à realidade (isso denomina-se poesia!): quem? como? onde? virá, se é que se pode, destituir-me de minha dor, levá-la de mim (aborto para o lixo; mentira ao coração; ódio aos que vivem em cólera - levá-la como se leva o rosto ao soco, como se lava o sangue das mãos, após a carícia dos estúpidos: como se conduz as vísceras ao cabo da faca: imolação...); por um instante, antes do apocalipse deflagrar, escuto um fallen angel executando um solo de trombeta numa flor de beladona: quem poderá, tira, bandido, Montechio ou Capuleto, dos elíseos ou dos umbrais, separar-me de meu medo, desencravá-lo de mim - adestrá-lo, deixá-lo dócil como um lobotomizado a passear sem poder algum em meio aos meus pensamentos sem que os transfigure em verde, sem que os potencialize em dor e os converta em dúvida: como e quem?
Escrito por l. rafael nolli às 23h28
[]
[envie esta mensagem]

OPHIDIA
Pois sim, e poesia é como agulha: elíptico metal que se perde fácil - melhor buscar outro do que chafurdar no palheiro. Sim, poesia é como agulha: pequeno ninho de cobra dormindo no tapete da sala.
Tela de Monica Sjoo
Escrito por l. rafael nolli às 21h29
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|